13.7.11

Sobre o que falávamos mesmo?

Passo-lhe a mão no pescoço e uma úmida respiração de pele me diz desejos e me estremece o corpo. Coloco-lhe a mão no rosto, aproximo-me um pouco mais, vejo a veia saltar-lhe logo abaixo do queixo em espasmos de uma fala cifrada, que a boca calada e o corpo imóvel tentam ainda esconder.
Um tênue calor sobe-me à garganta.
Sobre o que falávamos mesmo?", pergunta aos solavancos, com um fiapo de voz, enquanto suas pernas se esticam e se retraem sobre a cama.
Movo-me lentamente, meu peito se encosta em seu ombro, meus olhos nos olhos dela numa enxurrada de frases inquietas e mornas.
Um esticar de braço trás silêncio ao abajur e inunda o quarto com a cumplicidade da brisa de uma penumbra criada pela luz do banheiro.
Minha mão solta-se de seu rosto, desce-lhe pelo pescoço até atingir o fino tecido da camisola a lhe cobrir os seios: e lhe falo descompassadas frases no marulhar suave de dedos.
A colcha, encrespada aos pés da cama por ondas de meus pés afoitos, resigna-se a não mais cobrir nossos corpos. Esparramo no chão a alva maciez de um travesseiro e seu onipresente discurso de sono.
Ela agora tem a respiração mais acelerada, seus olhos buscam os meus não mais para fazerem perguntas, suas pupilas varrem minha face a lerem, com frenesi, as expressões de contentamento em meu rosto.
Sobre o que falávamos mesmo?
Nossa conversa paira sobre a cama, boia perdida na penumbra à espera de que lancemos um anzol que a resgate; à procura do cais onde aportam as conversas que os casais lançam às noites.
Não sei mais sobre o que falávamos. Não me incomoda num um pouco deixar esse assunto à deriva, chocando-se cego nas paredes do quarto.
Entrego-me a nossa conversa na penumbra: às frases que lhe digo em movimentos de braços e mãos, às frases que ela me diz em enlaçamento de pernas, às frases que nos dizemos no silenciar mútuo de lábios.

25.5.11

Houve um tempo

O choro de um bebê é latifúndio de som no início da noite. Sentado na calçada, encostado à parede da casa, o homem ouve o berreiro sem lhe prestar atenção. Cavuca os bolsos puídos e encontra duas notas de pequeno valor: tudo o que possui está nessas duas notas abertas em suja mão e espalmada.
Mas não eram três as notas que tinha?
Uma nota a mais representa a gritante diferença entre pagar por um banho e um prato de comida ou somente a comida.
Vasculha os bolsos com morna expectativa de os dedos mastigarem outra nota, mas nada - o banho terá de esperar mais um dia. Aperta o dinheiro, guardando-o de volta na calça, sem desolação, sem alegria.
O bebê ainda chora.
Houve um tempo em que um bebê chorava ao seu lado, em que uma mulher gastava dias lhe cobrando responsabilidade em gritos que lhe chegavam pastosos ao se desmancharem nos etílicos caminhos de sua mente.
Tudo isso tremelica em sua cabeça em bruxuleios de uma chama fraca e inconstante. A imagem de um passante qualquer é vento despretensioso a apagar o que poderia ser uma lembrança.
Sua mente agora é poço vazio, um pântano lodoso a digerir imagens sem as pensar, sem as sentir; um espaço árido onde todas as memórias letargem perenemente entorpecidas pelo álcool.
Levanta-se, empurrado pelo desejo de comer. Pega a sacola em que duas camisetas não prometem coisa alguma - apenas o acompanham para, em um momento, cobrir-lhe o corpo imundo.
Olha para a direita, para a esquerda, sabendo pouco importar a direção escolhida: terá mais uma vez de vencer a noite com seus enormes cães que se entredevoram.

7.4.11

Casa vazia

O estrado da cama e o colchão foram as últimas coisas a saírem.
Por cerca de três horas, foi uma confusão de pés a se moverem pela casa; de vozes a se entrechocarem e a se alimentarem num eco cada vez maior pelos cômodos cada vez mais vazios.
Ontem à noite, as paredes do quarto assistiram minha insônia por causa de uma tosse ritmada; e agora olham, nuas, o teto, que parece mais branco, espiam o chão, que parece mais amplo.
É tudo tão mais claro e largo numa casa vazia.
Vejo, nas paredes, cicatrizes que eu não percebia. Passo a mão na úmida frialdade de um bolor que, escondido, crescia num silêncio monástico. Mutilados espelhos de tomadas escancaram-me suas dores, sufocadas em secos gritos atrás de um móvel qualquer.
Amanhã ou depois, um homem virá, jogará tinta branca sobre todas as paredes e ninguém mais poderá me ver nelas.
Caminho lentamente pelos aposentos, e ainda assim o som dos meus passos é monólogo a martelar despedida pelo ambiente.
No banheiro, o chuveiro é corpo descarnado sem a promessa de água a lhe escorrer pelos poros. Nos quartos, as janelas cerradas murmuram a lamúria de uma penumbra. Nos tetos, as lâmpadas resignam-se, ao terem amordaçados os seus discursos de luz.
É tão sombria a claridade de uma casa nua.
Meus móveis, minhas roupas caminham agora pela cidade, chacoalhando apertados dentro de um caminhão. Numa cúmplice mudez de anos, levam a mim mesmo.
Daqui a pouco, vou povoar outras paredes - túmulos recém caiados de outras vozes.

4.3.11

Fico assim a vida toda?

A primeira vez que a viu, caminhava distraída quando sentiu a sensação de estar sendo observada. Levantou olhos e viu uma mulher em pé à uma janela, a cortina logo atrás. Tão logo a olhou, a mulher começou a balançar a mão num aceno de frenética alegria.
Procurou atrás de si a quem seria o cumprimento e não encontrou outra pessoa. Respondeu meio sem-graça, para não embaraçar a mulher, que não parava de se agitar, numa automática alegria de convulsão de braço.
Caminhou mais uns dez passos, parou e viu a mulher à janela repetir os gestos a outra pessoa que vinha pela calçada.
No outro dia tornou a passar pela rua e a mulher, com a cortina atrás de si, acenou-lhe novamente a enfática saudação de um reencontro. Tentou responder-lhe com alguma emoção, mandou-lhe um beijo, e recebeu apenas a mecânica sinfonia de nota única de um braço a girar no ar.
Evitou o caminho por dois dias. No terceiro estava decidida a dar à mulher um pouco mais do que tão somente um cumprimento.
Chegou-se próxima à janela, chamou-a, perguntou-lhe o nome. A mulher debruçou-se, encarando-a.
A cortina batia-lhe nas costas, na densa respiração de um vento fraco. A sala estava imersa na penumbra de uma falsa noite, envolta num frio silêncio que escapava à rua e se estilhaçava ao se chocar com os ruídos da cidade.
O olhar da mulher à janela desceu até os olhos da mulher na rua. Inundou-os com a superficialidade das pupilas que enxergam, mas não vêem. Assoprou-lhes a ventania calma das almas à deriva, sempre prontas a reconhecerem em qualquer olhar o porto fugaz onde lançarão frágeis âncoras. E não disse palavra alguma.
Depois de alguns segundos, a janela estava recomposta, com a mulher novamente em pé, à espera sempiterna dos acenos desconcertados a lhe responderem o oscilar de braço, que pendula pleno da delicada sanidade humana.

23.2.11

Ainda ontem, nasci

O farfalhar de umas fitas presas ao teto recorda-me o móbile que havia suspenso sobre o meu berço - ou seria sobre o berço do meu filho?
De qualquer modo, lembra-me infância, invade-me uns cheiros, uma sensação estranha e ao mesmo tempo confortadora. Chego a me esquecer de que estou num hospital, por momentos distraio-me da dor.
Fosse o móbile meu ou do meu filho, a certeza de distrair o bebê que fomos da solidão de um quarto em que as pontas dos pés são as visitas fugazes da mãe a se certificar estar tudo bem.
Como aqui, de tempos em tempos: o abrir suave da porta, o arrastar descuidado de sapatos brancos, as mãos frias a me apertarem o braço, a cutucarem a mangueira de soro. E eu vago pupilas em silêncio - um corpo mirrado e ressequido a esgazear fingimentos de recém-nascido.
Quem pendurou as fitas, por acaso sabia que elas nos contam histórias?
O dedilhar sem nexo dos tecidos soam frases completas, que se encaixam numa assustadora coerência de mecanismos de relógio a engendrar casos.
Quando meu filho chorava, meus pés eram tropeços de ansiedade para chegarem depressa ao quarto e resgatá-lo das grades baixas do berço. Não me lembro, mas minha mãe deve ter feito o mesmo por mim.
Aqui não chego a chorar, apesar de não me faltar vontade. Mas se choro, viria uma chuva de porquês - e a quem chora não se entrega um tempestuoso céu de perguntas, mas a chuva morna de abraços.
Às noites, o choro galga-me a garganta com mais impaciência. Sei que é porque as fitas estão caladas. Até tento ouvir algo, um sussurro sem sentido qualquer. Mas tenho por distração apenas o abrir da porta, a claridade do corredor atropelar-se, quarto a dentro, e as mão frias a me apertarem o braço.
Quando sair do hospital, vou pedir umas fitas no teto do meu quarto. E lá ao menos não vou precisar enganar o choro.
Se ele vier, solto-o baixinho, aos solavancos molhados de frases inocentes. E apuro ouvidos, esperando o pé ante pé da minha mãe a se certificar de que está tudo bem.

26.1.11

Torrente

Nada foi deixado para trás.
Deixa-se aquilo que, num relance de olhar, é visto e as mãos não se despertam na vontade de pegar. Um quadro enorme dos avós, uma maço de cartas amarrado com fita de cetim, uma coleção de CDs há muito guardando somente a latência da música, alguns livros mantido em posição de sentido, numa ordem unida silenciosa e onipresente.
Tudo foi ostensivamente abandonado.
Começou quando nuvens carregadas escureceram o dia com a cor da tempestade. O dia não se faz noite, cobre-se com negra colcha de nuvens, perfuma-se com o hálito cada vez mais úmido do vento, até se banhar na chuva que ele mesmo gestou.
E a chuva é muita: uma caudalosa sinfonia líquida regida pelos invisíveis dedos de um maestro incapaz de lhe determinar o fim.
Da janela, a mulher olha desatenta os pingos repetirem o mesmo discurso céu-terra, criando um hipnótico mantra, alimentado pelo som da água a escorrer incessantemente.
Até que um barulho mais forte a desperta, ela olha a ladeira acima de sua casa e vê uma massa de terra intrometer-se no discurso da chuva com um xingatório feito de lama, escombros de outras casas, troncos de árvores apavorados a rodar desconexos, tentando com os galhos agarrarem a salvação de uma encosta.
Uma palpitação instintiva toma conta da mulher. Ela abandona a janela aberta – desmesurada boca faminta, prestes a se empanturrar de terra -, desabala-se esquecida do que seja respiração, com as palavras mutiladas em soluços de aflição, sai correndo para a rua em atropelos de sandália, agarrada ao filho de três anos.
Não, nada foi deixado para trás.

16.12.10

A fala delicada e fresca da tempestade

A sombra, que ora lhe caminha à frente ora a persegue resignada, é cria da luz dos postes da rua. Ela pisa, olhando a calçada, mas não se preocupa com a sombra.
Os sapatos mastigam o caminho de todas as noites, digerindo em passos o chão irregular das calçadas. Um úmido cheiro de chuva cavalga no vento e lhe invade as narinas, numa fala delicada e fresca de uma distante tempestade.
Ela olha o céu à procura da ausência de estrelas ou da languidez assustada do flash de um relâmpago. Tudo calmo - apenas o ruído normal de alguns carros. Ainda assim, ela passa a caminhar mais apressada.
Um vento interior, há dias a lhe varrer a mente em rajadas inesperadas, volta a soprar a brisa de um perigoso desconforto. A mulher sabe que, se permitir, essa brisa se alimentará de pensamentos brotados às pencas, numa colheita incessante, até se transformar em borrasca a lhe inundar a alma de angústia.
Tenta se distrair, desvia o olhar para os carros, para as pessoas que também caminham, ameaça cantarolar uma música qualquer, que solta-se apenas como murmúrios desconexos.
Falta pouco para chegar em casa e encontrar o refúgio na inundação de todas as luzes que deixará acesas, na televisão com a enchente de outros assuntos e ideias - e esperar que o cansaço de todo o dia seja a trama da veste que lentamente se lhe apega ao corpo e a leva à salvação definitiva do sono.
O vento interior sopra-lhe inesperadamente a imagem da escuridão da casa a esperá-la, do vazio dos cômodos envoltos num silêncio negro, de uma pegajosa solidão que a mulher alimenta na vida e que agora lhe parece uma incômoda companhia.
A mulher afasta o perigo desse pensamento com a afirmação a si mesma de que isso foi sempre o principal que ela quis.
Solta o ar pela boca com força por duas, três vezes, tentando expelir o desconforto a lhe nascer no estômago.
Coloca a chave no tambor, destranca a porta, gira a maçaneta.
E no momento em que lança o corpo à frente, o vento toma-lhe a alma e a desorienta, ao lhe insuflar o desejo de ouvir uma voz que a esperasse:
- É você?

11.10.10

As nuvens e seus úmidos cheiros

É sempre assim.
Começa com fiapos brancos a caiarem o azul do céu - alvos borrões criados pelos desossados dedos do vento. Os fiapos formam um rio timidamente leitoso a escorrer sem margens na pressa lenta de quem não precisa chegar.
É sempre, sempre assim.
Engrossando a voz de seu diálogo branco, os fiapos se argumentam em nuvens. Ainda há céu, ainda há azul, mas instintivo sentimento de unicidade perpassa seus corpos amorfos - e as nuvens se procuram na cegueira, orientadas por seus úmidos cheiros.
É sempre, sempre assim.
De repente, o azul passa a ser soluços em um branco céu de nuvens, que se aglomeram em um ser único, a alongar seus membros na voracidade calma da preguiça inofensiva.
É sempre, sempre assim.
Então vem o incômodo com o peso excessivo, a massa compacta a não mais desejar horizontes, o cansaço em ser um latifúndio branco a alimentar-se do azul que não mais é. Invade-lhe uma tristeza plúmbea que cresce, cresce até ser impossível continuar a senti-la - nasce de uma garganta sem boca o trovão, pesaroso grito de dor.
Foi sempre, sempre assim.
Desde o início, desde que pela primeira vez se uniram por seus úmidos cheiros, jamais as nuvens mudaram a forma de ganhar o céu, de esconder o azul. E quando o desconforto traz o grito de dor, as tornam negras como um corpo sem vida, as nuvens abrem suas entranhas macias, reviram seus úteros diáfanos.
E chovem.

27.9.10

Aqui em casa, só eu e minha irmã

Terça passada, durante o jantar, minha irmã reclamou de novo das minhas lamentações: "que velho chato você está ficando". Mas o que posso fazer se minhas pernas queimam tanto? E eu tinha de me lamentar era com ela, afinal só estamos nós dois em casa.
Fiquei bravo e disse que ficaria calado o resto da noite. Terminamos o jantar em silêncio, retirei o meu prato da mesa, ela retirou o dela e, em silêncio, fomos para a sala assistir televisão.
Na sala, com a luz apagada, o único som vinha do aparelho. Fui até o quarto buscar um cobertor para cobrir as pernas e vi minha irmã me olhar com o canto dos olhos e franzir os lábios em silenciosa desaprovação.
A porta que leva aos quartos rangia ao peso de um vento que eu não sentia. Minhas pernas ardiam, eu não queria me levantar para fechá-la. Minha irmã devia continuar franzindo lábios e espichando o olhar pelo canto dos olhos.
Eu disse que passaria o resto da noite sem dizer palavra, e jamais daria a minha irmã o gosto de me ver voltar atrás.
O som da televisão deixava o silêncio entre nós ainda mais pesado. Eu sentia como se fôssemos dois peixes a nadar descompassados em um aquário pequeno demais para nossas barbatanas. Minha irmã ainda tossiu duas vezes, soltou três longos suspiros - e eu nem me mexi. Fui ficando sonolento...sonolento...e adormeci.
Quando acordei, a novela já havia acabado e minha irmã também dormia.
Levantei-me, desliguei a televisão e fui para o meu quarto. Cutucá-la para que acordasse seria ainda um modo de dizer algo.
No outro dia, acordei e a encontrei ainda na sala, deitada na mesma posição em que a deixei à noite.
Isso já faz quase uma semana. Fico agora envolto nesse silêncio eterno, que quebro algumas vezes com minhas lembranças e lamentações de velho, a esperar a ruidosa desaprovação da minha irmã com a lua cheia do canto de seus olhos e de seus lábios congelados em enorme onda.

13.8.10

A encher o quarto

Do lado oposto ao que o homem se deita na cama, rente a uma parede do quarto, um par de sandálias de salto alto é voz da ausência da mulher a encher o ambiente. O homem no aposento também não está. Mas nada lhe diz a ausência: nenhum par de sapatos rente a uma parede, nenhuma camisa sobre a cama - mudez.
Sobre o leito, dois travesseiros sentinelam à espera do sono que carregarão durante a noite, uma colcha clara estica-se sem vincos, sonhos e prazeres vagam tresmalhados pela cama.
As tiras do par de sandálias pendem desfalecidas à memória dos tornozelos que envolviam. Os saltos ainda sabem do corpo que sustinham. E as sandálias enchem o silêncio do quarto...
Em um canto, uma poltrona aquieta-se na resignada inutilidade de restar-se vazia.
Junto à cama, dois abajures, calados em seus discursos de luz , aguardam, em uniformes de poste, o toque que lhes destrave as bocas.
Então o homem entra e enche o aposento de movimento. Agita-se em passos, espalha gestos pelo ar, povoa o ambiente com o cheiro da rua e de outras gentes, esparrama sobre a cama uma camisa, liberta o discurso de um abajur, joga-se na poltrona - e se aquieta.
E logo tudo se acomoda em um silêncio feito de uma poltrona ocupada, de murmúrios de um abajur, da presença robusta do homem.
Mas rente a uma parede, a encher o quarto, o par de sandálias é a voz da mulher a gritar-se em silenciosa sensualidade.

21.7.10

Mil corações e um

O que eu tenho é que arrumar algo para fazer, distrair a cabeça, diz o homem a si mesmo enquanto olha as próprias mãos unidas, trançadas em aperto de víbora. O corpo estremece sob a pulsação de mil corações repletos de sangue, um sangue quente, encarnado, a atropelar-se nas veias, a criar essa raiva a lhe secar a boca.
E os olhos vidrados nas mãos enlaçadas, envoltos na artificial placidez da invisível neblina do antidepressivo.
"distrair a cabeça..."
Levanta-se, vai até a cozinha, bebe um copo de água, a boca ainda seca, o fogo de mil sóis movendo os mil corações e essa raiva.
Chega-se à janela da sala, olha a cidade lá embaixo: prédios, casas, gente, tudo calmo, tudo tão injustamente envolto em serenidade.
Onde o motivo de tanta raiva? Afinal, a vida tão tranquila: filhos criados, aposentadoria confortável, a cálida luz da companhia de uma mulher tolerante.
E ainda assim a ansiedade, esse inseto com mil asas de fogo a esvoaçar às cegas por suas entranhas.
"arrumar algo pra fazer..."
O corpo estático, as mãos mais uma vez atadas e os olhos fixos nos dedos com as falanges brancas. Mas o olhar está voltado para dentro do homem, encarando os mil sóis que ardem, sentindo o pulsar dos mil corações, tentando seguir o voo das mil asas desse inseto errante.
Escolhesse o homem o coração certo, deixasse a luz de um único sol, entre tantos, iluminar-lhe os batimentos, veria.
Veria a larva gerada no rancor frio de muitos anos, na angústia banhada em um lago de aparente resignação: uma superfície calma a esconder...
Escolhesse o homem o coração certo, acompanharia o desenvolver dessa larva, cuidaria de seu crescimento, esperaria que ela criasse mil asas de palavras a lhe escapar em voo pleno pela boca.

19.5.10

Longos, lentos, pesados minutos

         Três botões abertos na camisa aliviam pouco o calor que o velho sente: bom seria o escorregar macio do vento sobre a pele, a névoa fresca da chuva respingada no parapeito da janela. Mas o vento se escondeu - e se esconde tão bem que é impossível achá-lo e metê-lo novamente à galope. E, da chuva, só se sabe quando chega.

         De modo que o homem está na sala, a meio caminho do alpendre, em busca de um frescor incerto. Mas "a meio do caminho" pode ser incentivo a embutir traiçoeira facilidade: ao velho, fazer é verbo de conjugação lenta e muitas vezes impessoal.
         As pernas não mais têm forças, e os pés rastejam pelo piso - barcos a singrar sem velas um mar sem água. Primeiro o pé direito se adianta, só um pouco, adiantar-se demais é trazer desequilíbrio ao corpo. Espera. O pé esquerdo então desliza, passa rente ao direito e ancora-se numa mansidão de pedra.
         Durante longos, lentos, pesados minutos alterna-se um chiado à direita e à esquerda, até que o velho cruza o limiar da porta da sala e recebe no rosto o silêncio seco do vento ausente.
         No canto do alpendre, uma cadeira de balanço é calada oferta de conforto.
         O velho se aproxima, apóia a mão direita em um braço da cadeira, a esquerda em outro, tenta suster o próprio peso e sentar-se suavemente. Mas as forças, que faltam às pernas, esgotaram-se nos braços, e o corpo do homem despenca no assento de madeira.
         A cabeça recostada no espaldar, a boca ligeiramente aberta numa respiração rouca, os olhos desatentos e opacos, o velho solta o braço direito ao lado do corpo.
         Compassadamente, move-o com movimentos de pêndulo, a marcar a cadência precisa dos passos firmes do Tempo.

13.4.10

Como dizer em silêncio

         Uma lona plástica inflada, lambida, rasgada pelos dedos sem ossos do vento cobre a pilha de tijolos. A chuva bate em seu corpo impermeável, empoça-se na terra batida e escorre mansa e resignada.
         Meia hora depois, a luz frágil do sol a imprecisar-se por entre nuvens ralas, a chuva se cala.
         As mãos servis de um ajudante levantam uma parte da lona, enchem-se de tijolos, colocando-os em uma carriola: a aspereza da pele dos dedos contra a aspereza da carne de barro; os dedos vermelhos do sangue em pó dos tijolos; a mudez da pilha que se desfaz; o silêncio perene, selado pela argamassa de cimento e cal a unir os tijolos.
         O servente descarrega a carriola, que range solavancos no terreno irregular na volta à pilha. Quando retorna, cheia, range estridência sob o comando dos tesos braços do homem.
         Ele tira o boné para afastar o líquido caminho de suor a lhe nascer no rosto, e retoma calado o trabalho de desamontoar e amontoar tijolos. Um rádio esganece música ao fundo, criando o diálogo a manter unidos servente e pedreiros.
         Sob um vento agora fraco, a lona plástica tem leves espasmos de sono. Pouco a pouco, o servente esvazia-lhe as entranhas, trocando o silêncio de um ventre pleno pelo silêncio do nada.
         Onze horas. As mãos desatam panos de prato, libertam marmitas, acendem fogareiros. Nasce entre os homens uma conversa entrecortada por notícias no rádio,uma conversa a saltear-se durante o almoço, a secar-se lentamente no momento da sesta.
         Mudos, os tijolos esperam.
         Esperam sob a lona sem saber aonde a luz, aonde o vento, aonde o mundo.
         Esperam alinhados, a erigir paredes em que não se conhecem.
         Esperam pelas mãos ásperas que, sem o saberem, quebram-lhes a mudez - e juntos passem a dizer casa.

5.3.10

Em tua companhia enquanto não chegas

Um copo vazio vigia, com sua órbita oca, meus passos pelo quarto.

A cama, com os dois travesseiros ancorados, aguarda a imersão em si dos nossos corpos, que ela carrega pelas noites.
O som da televisão me chega estremunhado, cheio de vozes irreais - quem são essas pessoas que, sem estar aqui, querem falar comigo?
Acesos, dois abajures são leais sentinelas a velar minha espera.
Espero-te.
Uma chuva fina fala mansamente à terra os segredos do céu. A invadir o quarto, o cheiro de terra molhada são balbucios de prazer do solo.
E eu espero.
Entregar-me ao sono seria o mais fácil: duas páginas de um livro, a elétrica lealdade dos abajures, o corpo cansado a se distanciar do mundo, o entorpecimento rápido e certo. Mas assim não haveria a surpresa da tua chegada.
Não haveria meu salto da poltrona, não haveria meus braços e teu corpo, nossas bocas não se haveriam em beijo. A espera, a alar-se em si mesma com penas de ansiedade, não haveria.
Por isso, espero.
Espero o momento em que tua mão regue a maçaneta com dedos e inunde o quarto com a fala curta do trinco aberto.

7.12.09

A noite em noites e penumbra

Faz pouco mais de meia hora que se deitaram. A mão esquerda da mulher remansa sobre a direita do homem. Conversam a meia luz, pois ele adora a penumbra – a claridade ostensiva esconde os detalhes, e são os detalhes a ínfima textura de tudo.

O homem a puxa para junto de si, beija-lhe a testa. A penumbra lhe mostra o preciso contorno da coxa escapada da cumplicidade da camisola, a depressão das costas à mostra, os suaves pêlos da nuca.
O corpo da mulher se estremece em seus braços quando os pneus de um carro gritam freada na rua, depois de quase atropelarem a desatenta fome de um vira-lata. O motorista xinga, o cão recolhe culpa e susto entre as pernas, e se enrola sobre si mesmo sob o incessante discurso de luz de um poste. Com negras órbitas de universo, o animal olha a água, recém liberta de um cano incompetente, desembestar-se rua abaixo em líquidos atropelos de corrida – corre amparada pelo onipresente leito da sarjeta até o abrupto despencar no abismo de um bueiro. Em seu percurso, a água enche o silêncio da noite com úmidos murmúrios. Mais alguns minutos, e um outro carro desce a rua espalhando o metálico ranger de suspensão cansada. Logo a seguir, a voz de alerta da buzina da moto de um vigilante grita tranqüilidade e desperta o cão. E, serenamente, o sono se espreguiça e começa a se espalhar no vasto corpo da noite.
No quarto, o sono que pegou de surpresa o cão, a água, a rua vira o rosto à penumbra e se esparrama sobre os corpos nus do homem e da mulher.