17.5.07

Desassossego

Ouço o martelar insistente na construção ao lado mandar embora o silêncio que me acompanhava. Ele reluta em partir, enrola-se no tapete, permeia piso e paredes, mas o martelo não desiste e invade o espaço com seu discurso monocórdio.
Enquanto estávamos a sós, o silêncio me ajudou a ouvir cantos de pássaros e bater de asas; trouxe-me o rumor de ramos e galhos sendo vergados e o assobio das folhas nadando vôo caótico; fez-me escutar tempestades navegarem pelo céu e lavarem o mundo.
Depois ele se aquietou, soprando-me aos ouvidos sombras nascidas da ausente luz da angústia. Escutei todos os lamentos, enxuguei todos os choros, encarei os pesados olhos da tristeza que ora caminhava pela sala ora se deitava em minha cama. O hálito da tarde que se esvaía alimentava as nuvens que meu céu pedia.
E o silêncio me contemplava, parecendo aguardar o quanto minha alma ainda ventaria penumbra e desconsolo.
Mas o martelo quebrou tudo. Deixou o desorientado silêncio a bater cabeça. Fez com que o encapelado mar da angústia se recolhesse em falsa calmaria. Empurrou a tristeza ao porão escuro e frio no qual ela se nutre. Eu me levanto, acendo as luzes da casa, pego o livro esquecido sobre a mesa, passeio olhos em desatenta leitura e fico a ouvir o martelar, o martelar, o martelar...