23.11.13

Uma maravilhosa onda humana

         A caixa de papelão é fina e o homem a retalha com cansada veemência. Descarta a tampa e o fundo, restam quatro placas empilhadas uma sobre a outra e envolvidas pelo defeituoso laço de um abraço.
         O homem olha a rua: esquerda ou direita?
         Passam poucas pessoas por ali. A essa hora da manhã, o movimento na confluência com a avenida deve ser maior. Decide, então, tomar a sua esquerda, subir a rua.
         A cadência dos passos pode demonstrar indecisão, mas é tão somente ausência de pressa. Os pés não martelam o chão: tocam-no com um subentendido pedido de licença, às vezes se arrastam como se houvesse o desejo de limpá-lo da sujeira - que ao chão e ao homem não incomoda.
         As quatro placas de papelão trocaram de braço. O peso é nenhum, a troca foi feita apenas para liberar a mão direita para que ajeitasse a barra da calça, que se prendia sob o tênis num atrapalhamento de excesso de pano.
         Para.
         Olha rua acima, olha rua abaixo.
      O vento cresce em velocidade próximo à esquina. Avoluma-se no corredor de prédios que sempre se espremem à proximidade de uma avenida.
         Falta somente um quarteirão, não compensa agora mudar de direção rua abaixo. Mantém a escolha e retoma os olhos no chão, os passos ora arrastados, ora pisados com um despropositado e impensado cuidado.
         Na esquina, uma onda - uma maravilhosa onda humana - move-se com a matinal pressa das pernas; com o necessário apoio do balanço dos braços; com a descombinada, mas onipresente, contrição de rostos.
         O homem passa a mão pelo rosto, joga no chão três placas de papelão e sobre elas se ajoelha. Abaixa a cabeça, levanta o olhar - a varrer com ele o movimento das pessoas -, abre a mão direita em concha, a esquerda segura a outra placa onde, há pouco, um pedaço de giz rabiscou: "TENHO FOME".

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