17.9.13

A essência do silêncio

         Lembro-me de que o banco de cimento estava gelado. Devia ser por causa do orvalho da madrugada, porque sei que havíamos saído de casa muito cedo.
         Eu não conseguia encostar os pés no chão - aliás, muito longe disso em meus três anos de idade -, e por isso levantava uma perna e outra para escapar do contato com o banco.
         Não me lembro se passei frio, mas minha mãe deve ter me agasalhado. Só me lembro mesmo é do gelado do banco e de que reclamei para minha mãe.
         O banco existe até hoje em frente a Instituição. Acho que cabem umas três ou quatro pessoas nele. Não sei se naquele dia havia mais alguém além de mim e de minha mãe.
         Disseram-me que fiquei muito tempo sentado ali - disso também não me lembro.
         Além de ser muito pequeno, o fato de nunca ter enxergado restringe minhas lembranças a sensações outras da impossível visão.
         Não sei se aquele dia demorou mais para amanhecer, se estava nublado ou se o sol já chegava ao pé do banco - assim como não sei sobre isso em nenhum dos outros dias.
         A escuridão em que nasci dói mais nas pessoas que me conhecem do que em mim. Ela é minha companhia, alguém com quem posso dialogar a qualquer momento, o espaço onde projeto todas as minhas percepções para poder ver o mundo.
         Aqui, na Instituição, as freiras me ensinaram a ver no que não é visto, assim como no silêncio do não dito há a essência que antecipa a fala; ensinaram-me a viver no escuro aproveitando a claridade que nos ronda.
         Por gostar demais daqui, jamais quis partir. E as freiras me deixaram ficar.

         Não sei porque estou falando do banco gelado, mas daquela longínqua manhã em que cheguei, resta-me a lembrança dele, a certeza de que reclamei e a essência do eterno silêncio na resposta que nunca ouvi da minha mãe.

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