7.8.07

Sedução

Tendo se deitado há pouco mais de dez minutos, olhar fixo no teto, um abajur aceso ao lado da cama, um livro aberto sobre o peito, o homem pensa em seu dia enquanto espera pela mulher.
Desperta e lúcida, a Noite vagueia escuridão pelo quarto e alimenta sonolência no homem. Aliando-se à noite, o cansaço lhe pesa as pálpebras; ele pisca uma, duas vezes, cerra olhos para a Vigília, começa a cochilar.
A mulher entra no aposento, chama pelo marido, não obtém resposta. Fecha vagarosamente a porta, olha no leito e vê o homem dormindo. Movendo-se com cuidado para não despertá-lo, ela abre gaveta de uma cômoda e pega uma camisola de seda.
Mesmo esforçando-se para preservar o sono do homem, o barulho de abrir e fechar a gaveta o desperta. Mas ele mal abre olhos, vê apenas o vulto da mulher, e o Sono fica indeciso entre estreitar o abraço ou afastar-se do corpo do homem.
Amolecido, ele vislumbra a mulher envolta em névoa feita de torpor e sonho; percebe-a tirar a calça, a blusa, passear pelo quarto uma diáfana nudez coberta apenas pela lingerie. Quando a mulher tira o sutiã, puxa as alças da calcinha, ajeitando-as na cintura, os sentidos do homem tentam arrebentar a fina camada de languidez que se prepara para jogá-lo no noturno abismo do sono. Alquebrado, o corpo lhe exige imobilidade; as pálpebras lutam para que os olhos se esqueçam de enxergar.
Ela veste a camisola, ele tem a opaca visão do tecido macio a lhe escorrer na pele clara, e solta um suspiro longo e morno.
A Noite desnuda ainda mais seu seio negro; o Sono arqueia seus mil braços de sono.
E a mulher passa a mão pelo rosto do homem, beija-lhe a testa e apaga a luz do abajur.

11.7.07

Materno

Quantos minutos deixam de existir com o avanço do ponteiro do relógio de parede? A mulher não conta o tempo pelo relógio, mas pela quantidade de mães e crianças que entram e saem da sala de espera; conta-o pelo choro lento e molhado dos bebês; pelo letárgico sono febril de algumas crianças, como esse que brinca de tomar seu filho pelas mãos e imergi-lo em lamentosa apatia.
O menino encosta a cabeça no braço da mãe; o ardente e invisível fogo das febres pesa-lhe as pálpebras, e ele pisca olhos. Olha ao redor sem interesse, vê outras crianças e quer distância delas, quer mesmo é voltar para casa. Enfia a mãozinha pelo braço da mãe, que o olha por sobre o ombro: “Que foi, Felipe...tá doendo?”. Ele nada responde, mal levanta o olhar, afunda a cabeça no colo materno, num esforço entre manter-se sentado e se deitar.
A mulher alisa os cabelos do filho, coloca-lhe as costas da mão direita na testa, medindo com precisão materna a temperatura. Na mão esquerda, o envelope lacrado do laboratório.
A mãe corre olhos pelo nome do filho, pelo nome do médico impressos no envelope. Olha o papel muito branco, sem dobras, sem manchas, apenas um selo lacrando o destino de Felipe; apenas um selo e o tempo escoado em mães e crianças a entrar e sair do consultório. Há dias a quente lava da ansiedade queima-lhe o estômago, tranca-lhe a garganta, impedindo-a de se alimentar, apagando-lhe o sono, consumindo-lhe a voz.
O menino se mexe, tenta se levantar, a mãe puxa-o pelos braços, ajeita-lhe o corpo amolecido em seu regaço, beija-lhe a testa.
Quando a secretária a chamar, ela carregará o filho no colo, entregará o envelope ao médico, atingirá o cume da montanha que vem evitando escalar, terá de lhe encarar a fumegante cratera.
E rezará para que as palavras ouvidas sejam rio sereno e fresco a lhe aplacar o vulcão da angústia.

5.6.07

Faces do rosto esquecido

A pilha de tijolos já estava encostada na casa quando o homem se decidiu por sentar-se. Um, dois, três...cinco retângulos de barro, largados uns sobre os outros, esqueciam-se da obrigação de serem parede naquela manhã de domingo. Juntos, compartilhavam inútil individualidade até que o homem resolveu utilizá-los como um mal arrumado banco.
Sentou-se, abriu as pernas para melhorar o equilíbrio, pôs as mãos sobre os joelhos e passou a olhar a rua.
O sol mastigava as folhas de uma árvore plantada na calçada, mas apenas uns poucos raios venciam a resistência da folhagem e atingiam o rosto do homem. No início, incomodado, ele piscava olhos cada vez que a claridade lhe inundava as pupilas. Logo se acostumou, e o jogo de sombra e luz não mais o importunava.
O calor ainda era pouco, por isso deixou as mangas da camisa abotoadas, escondendo os braços secos; à mostra apenas os dedos ressequidos pelos anos de trabalho com cimento, areia, cal.
O homem olhava a rua, mas enxergava longínquo quintal; permanecia calado, mas repetia nomes gravados na eclipsada memória infantil; não ouvia o barulho à sua volta, deixava-se relembrar vozes fracas, que perdiam intensidade para apenas uma se sobressair, firmar-se, gritar-lhe na alma uma frase...uma frase...: ”Vá com Deus, meu filho...”.
Ficou em pé com um pulo, passou a mão na barba de três dias e usou todas as forças para que a memória trouxesse, junto com a voz reconhecida, o rosto da mulher de cuja boca a frase saíra.
Não conseguiu recordar. O homem dirigiu-se para dentro de casa, esqueceu-se do distante quintal, dos nomes que pularam em sua mente, agarrou-se à voz que ressoava em sua alma: primeiro dos tijolos moldados à lembrança que, empilhados, formarão o mosaico de sua saudade.

17.5.07

Desassossego

Ouço o martelar insistente na construção ao lado mandar embora o silêncio que me acompanhava. Ele reluta em partir, enrola-se no tapete, permeia piso e paredes, mas o martelo não desiste e invade o espaço com seu discurso monocórdio.
Enquanto estávamos a sós, o silêncio me ajudou a ouvir cantos de pássaros e bater de asas; trouxe-me o rumor de ramos e galhos sendo vergados e o assobio das folhas nadando vôo caótico; fez-me escutar tempestades navegarem pelo céu e lavarem o mundo.
Depois ele se aquietou, soprando-me aos ouvidos sombras nascidas da ausente luz da angústia. Escutei todos os lamentos, enxuguei todos os choros, encarei os pesados olhos da tristeza que ora caminhava pela sala ora se deitava em minha cama. O hálito da tarde que se esvaía alimentava as nuvens que meu céu pedia.
E o silêncio me contemplava, parecendo aguardar o quanto minha alma ainda ventaria penumbra e desconsolo.
Mas o martelo quebrou tudo. Deixou o desorientado silêncio a bater cabeça. Fez com que o encapelado mar da angústia se recolhesse em falsa calmaria. Empurrou a tristeza ao porão escuro e frio no qual ela se nutre. Eu me levanto, acendo as luzes da casa, pego o livro esquecido sobre a mesa, passeio olhos em desatenta leitura e fico a ouvir o martelar, o martelar, o martelar...

11.4.07

Para você

Aridez é oásis de escassez em meio à opulenta vastidão.
Há dias em que ramalhetes de mãos se integram às minhas em afetuosidade cordial; constelações de estrelas tácteis tentam desanuviar o horizonte das relações sociais. Mas, ao anoitecer, se me faltarem teus dedos em pétala ou se teu céu sem nuvens não tatear nosso horizonte, não irei me valer dos ramalhetes nem das constelações.
Há dias em que meus olhos pisam continentes de palavras; incontáveis oceanos de vozes inundam os meus ouvidos. Mas, ao anoitecer, se faltar a ilha de frases de um bilhete teu ou se de tua boca não fluir rio algum a molhar o que minha alma ouve, não irei me valer dos continentes nem dos oceanos.
Há dias em que o vento que move os Homens espalha corpos por toda a extensão de espaço pela qual me movimento.
Mas, ao anoitecer, se teu corpo é apenas espaço em meu leito, a Noite vocifera noites plenas de ausência.

7.3.07

A noite, o sono, um homem, uma mulher

Sonolento, ele abre os olhos e vê a mulher ajoelhar-se na cama, colocar as mãos sobre o leito e avançar em sua direção com leve sorriso. A luz do abajur cria um halo em torno dela, fazendo com que ele tenha a impressão de ser a amada a fonte da luminosidade que passeia pelo quarto. Quando o rosto da mulher está quase tocando o dele, o homem cerra pálpebras e apenas sente, nos seus, o gosto dos lábios dela. Agora quem sorri é ele, torna a abrir os olhos, ainda com dificuldade pela sonolência que lhe neblina os sentidos.
Ela se deita ao seu lado, o homem se vira, e o rosto de um é margem oposta ao do outro – entre eles, um caudaloso rio de silêncio e quereres.
A mulher coloca a perna direita sobre as pernas do homem e o envolve pela cintura com o braço direito. O sono recolhe-se de vez a um estado de latência. E o homem olha a coxa sobressair da fenda do roupão, desliza as costas dos dedos da mão esquerda na face da mulher, beija-lhe a testa.
A mesma noite, que há pouco sombreava cansaço no homem, esvoaça pelo aposento cálidos desejos alados, que caem sobre os corpos e os alimentam com a troca dos toques de mãos e lábios.
Esquecidos da noite e do sono, o homem planta um sussurro próximo ao ouvido da mulher; ela fecha os olhos para senti-lo. Ele rega-lhe a boca com úmidas palavras não ditas; ela cria tempestade em líquidas frases soluçadas; O homem lhe semeia as pontas dos dedos pelo corpo; a mulher espanta a aridez de sua pele e cobre-se de arrepios.
Cúmplices, a noite consome seu longo fôlego em cadenciada respiração. E o sono sabe que terá um repouso prolongado.

7.2.07

Escuta o rumor de meus galhos

Sempre gostei de desenvolver teorias absurdas e defendê-las para você. Adoro perceber seu espanto quando, no meio de uma conversa séria, eu inicio um assunto perguntando, por exemplo, se você sabia que as novas gerações de esquimós tinham a pele mais e mais clara para não serem tão facilmente atacadas pelos ursos polares; ou então eu dizia que os monges tibetanos, cansados de sofrerem opressão pelo governo chinês, decidiram-se por abandonar suas crenças, a renegar sua fé.
Você arregala olhos, meneia a cabeça, entende o disparate e nós rimos, especulando as conseqüências de cada uma dessas idéias malucas. Depois eu te beijava, despedia-me e ia para minha casa.
Um dia, pouco antes de decidirmos que não mais haveria minha casa ou sua casa, mas a nossa, eu disse algo em que realmente acredito, apesar da estranheza do pensamento: os homens, somos todos árvores.
Você riu até mais não mais poder. Eu permaneci sério. E nada disse.
Não consegui te dizer que homens e árvores olham a passivamente a paisagem; que uns e outras se fixam no solo que melhor os acolhe; que ambos abrem-se em corpos e copas ao Sol; não te disse que homens e árvores subjugam-se ao marulhar manso das águas dos rios.
Não te disse nada disso. Mas quero dizer da árvore que eu era e daquela que agora sou.
Antes eu tinha você, voltava para minha casa e estendia raízes por entre escada e sala e cozinha, espraiava galhos por jardim e grama, plantava-me no vasto solo de meu quarto. Agora eu tenho você, volto para nossa casa e permeio minhas raízes entre as suas; meus galhos fazem rumor por entre os seus, tecendo a folhagem de nossas conversas; planto-me na fértil terra de amor de nosso quarto; deixo que a pele de meu tronco procure a sua pele em nossa cama.

9.1.07

O tronco e a corredeira

Pleno de secos galhos e de falta de vida, o tronco se desprende da margem onde um dia foi árvore e despenca no rio. No início, parece não saber o que fazer, qual caminho seguir. As águas tratam de mostrar-lhe sua única e bastante opção: entregar-se para que elas, águas, o carreguem.
Sem forças para dizer “não quero”, sem energias para gritar “deixem-me aqui”, o tronco embala-se rio abaixo, solta o corpo descarnado de casca e folhas, deixa-se ser lambido pelas úmidas línguas da água.
Alguns quilômetros adiante, sua carcaça está alquebrada pelo choque contra barrancos, muitos de seus galhos se perderam em meio à vegetação que cresce nas margens e que se permite ser esticada rio adentro, em clara zombaria a tudo o que a correnteza toma pelo braço e simplesmente leva e leva e leva ...
Em certos trechos, a correnteza torna-se mais forte, arremeda-se em corredeira; cria refluxos que engolem inteiramente o tronco antes de libertá-lo com menosprezo; brinca de jogá-lo acima do leito do rio, para recebê-lo de volta em abraço frio e molhado; empurra-o de um lado a outro, mostrando-lhe que ao esqueleto cabe apenas tentar manter seus ossos.
Com a garganta, que nunca teve, seca, o pedaço de madeira aceita em silêncio ser arrastado por líquidos caminhos. Vez ou outra, contempla a paisagem que corre nas barrancas. Nesses momentos, sente um torpor melancólico ao enxergar tantas árvores como também ele o fora; dói-lhe as rígidas fibras vislumbrar o verde das folhagens que também ele tivera; percorre-lhe o corpo uma virgem vontade de chorar.
E o tronco não chora porque os olhos que não tem são incapazes de salgar o rio.

13.12.06

Árvore

Que importa à árvore saber quantos anéis acumula em seu tronco? Importa-lhe saber a quantos anos estica tronco, ramos e folhas na direção do céu? E o que são anos, que é o Tempo?
Sua preocupação é fixar-se bem ao chão, estocar o solo com os aguilhões de suas raízes e prender-se à terra em abraço não envolvente; querer ainda alargar-se pelo espaço, dedilhando o etéreo terreno feito de ar com os galhos cheios de sua verde pele.
Oferece, ao açoite do vento, todas as faces que não possui – e resiste. Mesmo quando uma simples brisa cresce e se torna tempestade, a árvore redobra determinação, verga-se, urra com as escancaradas bocas desdentadas que lhe faltam – e continua a resistir. Raramente se entrega.
Desafia as finas e incandescentes agulhas do Sol, criando, a sua volta, inexpugnável sombra onde o frescor se deita e refresca as horas.
Recebe a chuva às vezes serenamente, às vezes intempestivamente. Mas sempre deixa a água lhe encharcar o corpo; sempre segura e engrossa pingos na massa de folhas que a reveste, soltando-os de tempos em tempos aos seus próprios pés.
Quando o Tempo, que ela não conhece, decide ser o momento de a árvore dobrar-se em única e definitiva queda, ela enfraquece o abraço das raízes, perde o desejo de alargar-se, despoja-se da folhagem.
O vento passa a evitá-la, contornando seus galhos com desprezo e lentidão. O Sol fustiga-lhe a fraqueza, fulminando com calor o frescor desprotegido de sombra. A chuva desce-lhe pelo corpo e a árvore não mais a percebe; a água escoa pela insensível carne rugosa do tronco e empoça-se perdida no solo.
Então, a árvore entrega-se, raízes-tronco-galhos, ao Tempo que não lhe importa.
E espera.

11.11.06

O sonho que Carlo não vê

Em pé na areia – seria fácil dizer “em uma ilha perdida”, mas as ilhas não se perdem. Perdem-se os homens que tentam buscá-las e tomá-las. Olhando a estreita faixa de praia – seria ainda fácil dizer “em uma ilha distante”, mas o distante para as ilhas é a extensão de terra que as afasta das águas, dos oceanos: o limite entre água e solo é que as faz serem.
Nessa ilha, o mar veste de líquido azul quase toda a vastidão de horizonte, deixando à mostra pequena parte de terra em que os homens fincam pés e salpicam amarras para seus barcos, sementes ocas a boiar e a esperar o momento de fecundar com trilhas sem formas os corpos dos mares.
Por aqui, o pequeno Carlo corre descalçada infância por caminhos de areia. Olha as embarcações saírem de manhã e mal repara no quintal azul de onde sai a colheita de peixes que elas trazem ao final do dia. Ao longo da tarde, ora molha os pés, ora mergulha no mar, embebedando-se de sal, sem prestar atenção ao líquido que retira o sol de seu corpo. Seca-se à sombra de uma árvore que ninguém plantou, e esparrama sono nos ventos alísios. À noite, deita-se tão logo escurece, ouvindo às vezes histórias de redes de pesca e de vagas, sem notar as estrelas gritarem eternamente, com silenciosa luz, as histórias de suas vidas que já não mais são.
Em sua ilha nem perdida nem distante, o pequeno Carlo sonha com ilhas cada vez maiores. E enche-se de prazer ao imaginar que delas poderá lançar seus barcos, que poderá se refrescar em seus mares, fazer a sesta em suas brisas, contar luzes em seus céus estrelados.
Quer crescer logo para partir, procurar ilhas distantes e perdidas, buscá-las e tomá-las.

3.10.06

Canto de cigarra

O entardecer pinta de lilás as esparsas nuvens que bóiam no céu. O sol arrasta lentidão e recolhe o calor de sobre a terra. O vento voa vôos tímidos, sem vivacidade, cansado de ter soprado tantas folhas e folhagens, tantos troncos e caules, tantos lagos e rios sem conseguir a nada refrescar.
Presa a uma árvore, uma cigarra macho alimenta-se silenciosamente. O frescor que chega com o final do dia traz-lhe maior conforto, fazendo com que o instinto recomece a soprar-lhe a necessidade do acasalamento.
Dentro de casa, o homem olha, sem interesse, a noite escoar vagarosamente sobre o mundo e pensa somente que a qualquer momento a mulher chegará.
Após tantos anos sob a terra, esperando o momento de amadurecer, de aflorar à superfície, de galgar troncos, alimentar-se de seiva e cantar a imperiosa necessidade de se acasalar, o inseto resta imóvel.
Quase plenamente instalada do lado de fora da casa, a escuridão passeia olhos pela alma do homem, inquietando-o com a demora da mulher, maldosamente insinuando-lhe que a noite será de solidão e que o desejo deverá ser recolhido. Então ele movimenta-se impaciente pela casa.
A cigarra não argumenta com a Natureza: solta seu estribilho, inunda o ar com o som de seu canto, espalha seu chamado pela fêmea, agita-se ante o pouco tempo de vida que lhe resta e, sem se mover, canta e canta e canta...
A mulher chega, o homem só lhe diz abraços e mãos espalmadas em suas costas, em seu rosto; e lhe diz beijos, calando-lhe os lábios que explicavam; e passeando a língua pela boca que lhe é cada vez mais oferecida, o homem diz desejos à mulher.
A cigarra arrefece o canto, bate asas e mergulha no escuro em frenético vôo sem rumo.
Choca-se contra a janela do quarto da casa, onde o homem mansamente comunga amor.

5.9.06

O menino, a pedra e o lago

Reflexo do infinito abismo azul sem nuvens, a superfície do lago cobre mansamente toda a água de que também ela é feita. O Sol espreguiça cálido olhar sobre o líquido que ainda há pouco dormia. Na margem, pai e filho estendem olhos pelo corpo aquoso enquanto caminham a passos lentos, trocam algumas palavras, chutam pedras e quebram gravetos com os pés desatentos.
O homem abaixa-se, mexe em algumas pedras, escolhe uma com a face bem lisa, chapeia o pedregulho na superfície da água. O objeto resvala no líquido por duas, três vezes antes de afundar. O menino acha graça da mágica do pai. Nova escolha, novo movimento de rotação, e a pedra caminha aos saltos sobre o lago antes que ele a absorva na líquida eternidade de seu corpo.
O filho se empolga: quer aprender a fazer a mágica do pai.
O homem escolhe um cascalho para a criança, coloca-o em sua pequena mão, ensina ao menino o movimento de braço e mão.
O rapazinho ensaia jogar, olha para o pai, dá um sorriso. “Olha pra frente!”, e ele volta a se concentrar na voz que segue a instruí-lo.
Realiza um, dois movimentos falsos de arremesso, até que no terceiro o pedregulho lhe sai da mãozinha.
A pedra sustém-se no ar sem vento e inicia viagem. O menino prende a respiração à espera do encantamento. O lago vigia, com seus milhares de olhos de água, o percurso do objeto. A pedra distancia-se da criança, da margem, aprofunda vôo. O menino esparrama sobressaltos do coração por todos os seus órgãos. O lago, impassível, segue observando, e diz com o silêncio a inevitabilidade do encontro. A pedra, sem mover as células que não tem, segue o destino que desconhece: cair. O menino é ansiedade em ver quantos pulos seu cascalho dará. O lago contempla o azul acima, relaxa todas as suas líquidas fibras, e espera. E no mesmo segundo de Tempo, a pedra toca, o menino assiste e o lago sente.

11.8.06

Aos peixes que plantei

Dentro de um aquário, os peixes são folhas de árvore sem tronco a se moverem na aragem da água. Vasculham cada milímetro do pequeno espaço em que vivem sem se cansarem com a repetição da paisagem; deslumbram-se com a imobilidade de uma sempre e mesma pedra; nadam, crianças encantadas, por entre o verde perene de plantas artificiais.
Em um canto da sala, dentro das paredes de vidro que faziam meu aquário, plantei uma dessas árvores, feitas de folhas pequenas e coloridas. Gostava de relancear olhos para ver a agitação dos pequenos animais, que pareciam prestes a serem arrancados por vento tempestuoso e constante. Havia prazer em, ao alimentá-los, vê-los vir à tona com a voracidade da última e definitiva refeição. Sentia-me relaxado em ouvir o som da bomba irrigando a água com o ar de que eles necessitavam. Deixar a sala no escuro, iluminada apenas pela luz que acendia o aquário, fazia-me ter a sensação de que o mundo era feito daquela água, daqueles peixes – e alimentava a saudade dos mares que me envolvem.
Essa semana, cheguei em casa, fui alimentar os animais e surpreendi-me: todo o líquido que os sustentava havia-se esvaído por inexplicável rachadura na parede de vidro. Os peixes – todos eles, toda a folhagem multicor de minha árvore sem tronco – repousavam eternidade sobre o leito de pequenas pedras azuis.
Peguei-os, um a um, e os plantei em meu jardim.
Todas as noites, quando a escuridão abraça minha casa e respira dentro de minha sala, acendo a luz do aquário, fico olhando a água estéril em folhas. E pacientemente aguardo a colheita.

3.7.06

Sons de voz escarlate

“A veia desse braço não está muito boa...vamos tentar o outro?”
A enfermeira muda o suporte de lado, pede que o homem apóie o braço e que feche a mão. Aperta-lhe o bíceps com um pedaço de borracha, alisa com as costas do dedo indicador direito a veia que salta.
A mulher esfrega um chumaço de algodão embebido em álcool na pele do homem, espera alguns segundos, aproxima a agulha e prepara-se para injetá-la obliquamente na veia.
O homem não tira os olhos da seringa, fixando atenção à ponta metálica da agulha.
Um leve esforço na mão da mulher, e o homem sente a picada, mantendo os olhos fixos no metal que lhe invade a carne. A enfermeira puxa o êmbolo, enchendo a seringa com o líquido, que apressadamente tinge de vermelho todo o recipiente.
O sangue mal se acomoda e já é transferido para um tubo. Acostumado a gritar velocidade através do corpo do homem, o líquido agora emudece imobilidade. Com as paredes levemente avermelhadas, a seringa é jogada ao lixo.
“Pode abrir a mão...segure esse algodão um pouquinho...isso...só até eu colocar um esparadrapo...pronto...”.
O homem se levanta, guarda no bolso da calça o papel para a retirada do resultado do exame, e parte.
Dentro do tubo, o sangue, que há um minuto era luz líquida a escoar energia, é agora luz condensada a perder seu vital calor. Antes que toda a vitalidade se esvaia, ele contará histórias sobre o homem; dirá sobre saúde ou doença; mostrará despudoradamente as imperfeições que, por ventura, carrega; responderá, com todas as células de seu corpo, às perguntas sobre vida e morte.
E enquanto o calor fenece, esgotando-lhe calmamente as falas finais, o sangue fecha-se em crisálida rubra e guarda, no rubor de seu corpo inerte, segredos de desejos e paixões.

1.6.06

Eu e ela comigo

Seguro, entre as minhas, as mãos dela. Lá fora, a boca informe e fria da noite bafeja penumbra cada vez mais espessa. Peço licença para acender as luzes, vou soltar-lhe as mãos e percebo: não as tenho entre as minhas. Retive-as somente em pensamento. Pareceu-me tão real que juro havê-las sentido frias. Esforcei-me mesmo em aquecê-las. Só agora vejo que comprimia apenas e tão somente minhas próprias mãos. Levanto-me, acendo as luzes. Não me agrada o jorro de claridade a inundar o ambiente. Apago tudo, acendo unicamente um abajur.
Sento-me novamente e noto que, em nenhum momento, ela interrompera sua fala. Ainda assim, impressiona-me o fato de eu ter ouvido tudo o que ela disse. Lembro-me de cada palavra, do raciocínio, das minhas interpelações. Ela segue falando, eu sigo ouvindo, às vezes ela pára de falar, eu emito opinião, ela concorda, discorda, prosseguimos conversando.
Esgueirando-se silenciosamente, o corpo volátil da noite neblinou completamente o mundo. Não me importo: enquanto estiver acesa, a fraca lâmpada do abajur nos mantém a salvo. E nos torna uno. Por isso, permaneço atento ao que ela diz e continuo ondeando pensamento pelos movimentos de seus braços, de sua boca.
De repente, levanto-me, prendo seu rosto entre meus dedos abertos, beijo-lhe levemente os lábios. Espero-lhe a reação. Nada acontece. Tudo é ainda penumbra e a voz de mulher. Lá fora, a noite ressona incansável vigília. Aqui dentro, a penumbra desperta o torpor da escuridão. Então constato que, em realidade, não me levantei, não lhe prendi o rosto, não a beijei. Mas meus lábios me dizem saber os dela.
Não os contradigo: prefiro que permaneçam enganados.